Antero de Quental Autor do Mês - janeiro 2026 BIOGRAFIA Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, Açores, no dia 18 de abril de 1842 e morreu (suicídio) no dia 11 de setembro de 1891. Tornou-se no símbolo da famosa Geração de 70 (ou Geração de Antero) e é referência obrigatória na poesia, no ensaio filosófico e literário, no jornalismo, mas também nas lutas pela liberdade de pensamento e pela justiça social, onde se afirmou como ideólogo destacado, provavelmente por influência da tradição liberal da sua família, que remonta à génese da colonização do arquipélago. É autor, entre outros, de "Sonetos de Antero", "Odes Modernas", "Bom Senso e Bom Gosto" e "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares" (1871), publicações que marcaram o seu percurso como poeta, filósofo e pensador de exceção no panorama cultural e literário português do séc. XIX: "Ninguém entre nós pôs mais paixão no propósito de decifrar e ao mesmo tempo emendar o destino português do que Antero” (citando Eduardo Lourenço). Antero de Quental,aos 10 anos de idade, veio estudar para Lisboa. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 1859, tornando-se no líder dos estudantes e seu porta-voz. Nessa época, publicou vários manifestos contra o conservadorismo intelectual e sociopolítico português. Os Sonetos de Antero, o seu primeiro livro de poesia, data de 1860 e, em 1865, publicou Odes Modernas, obra por si caraterizada como "a voz da Revolução", resultante da aliança entre o naturalismo hegeliano e o humanismo radical francês. É decisiva a importância de Odes Modernas no panorama literário português porque marca o advento da poesia moderna nacional e está na origem da nossa maior polémica literária de sempre (durou cerca de 6 meses, com mais de 40 opúsculos) a “Questão Coimbra” ou do “Bom Senso e Bom Gosto”, o título da violenta carta-panfleto de resposta à crítica provocatória feita à Escola de Coimbra por A.F. Castilho, que personificava o tradicionalismo retrógrado e ultrarromântico. Após a licenciatura, Antero foi aprender a arte de tipógrafo, na Imprensa Nacional, deslocando-se depois a Paris, em 1867, para aí exercer o oficio. Simultaneamente, familiarizou-se com os problemas do proletariado francês que, no nosso país, longe da industrialização, ainda eram desconhecidos. De regresso a Lisboa, escreveu “Portugal perante a Revolução de Espanha”, onde critica duramente a centralização política, defendendo que só através de uma federação republicana democrática se poderia encontrar solução para os males da Península. Em 1868, viajou para a América do Norte (E.U.A. e Canadá) e, no regresso a Lisboa, ficou num andar conhecido como o "Cenáculo" pelos seus amigos, entre eles, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Manuel de Arriaga, José Fontana e Ramalho Ortigão. A partir de 1870, intensificou a sua atividade política e social, colaborando na fundação de associações operárias e de uma secção portuguesa da Associação Internacional dos Trabalhadores, reforçando esta ação com a publicação de folhetos de propaganda. Nas palavras de Eduardo Lourenço: "Ninguém entre nós pôs mais paixão no propósito de decifrar e ao mesmo tempo emendar o destino português do que Antero”. O jornalismo também o atraía, tendo sido um dos diretores do República - Jornal da Democracia Portuguesa. Em 1872, publicou anonimamente o folheto “O que é a Internacional”, destinado a angariar fundos para a criação de um novo jornal, O Pensamento Social, que dirigiu em parceria com Oliveira Martins. O período mais estimulante da sua vida pública foi o que culminou com a organização, junto com Batalha Reis, das Conferências do Casino, iniciadas no dia em 22 de maio de1871, no Casino Lisbonense. A sua finalidade era a reflexão sobre as condições políticas, religiosas e económicas da sociedade portuguesa no contexto europeu porque "não podia viver e desenvolver-se um povo isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo", lia-se no programa redigido por Antero. A mais célebre das conferências é a sua: “Causas da decadência dos povos peninsulares”, que foi imediatamente impressa e se tornou no seu mais conhecido texto em prosa. Mas releve-se que nunca a ação política impediu Antero de continuar a vida literária. Em 1872, são publicados Primaveras Românticas - Versos dos 20 anos e Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa. Dois anos depois, manifestou-se a primeira crise de uma doença nunca completamente diagnosticada, que o vai impedir de se dedicar continuadamente a qualquer atividade. Por isso, decidiu, até, procurar cura num estabelecimento termal dos arredores de Paris, em 1878 e 1879. De volta a Lisboa, e sentindo algumas melhoras, retomou a atividade política e aceitou candidatar-se como deputado pelo Partido Socialista nas eleições gerais de 1879 e 1880. No ano seguinte, após ter adotado as filhas do seu grande amigo Germano Meireles, falecido em 1878 (Albertina, de 3 anos, e Beatriz, de ano e meio), decidiu fixar residência em Vila do Conde, onde irá permanecer os 10 anos mais calmos e literariamente mais produtivos da sua vida. É lá que escreve os últimos sonetos, reflexo do espiritualismo que lhe permitira ultrapassar a crise pessimista. A nova orientação de pensamento demonstrada nos últimos poemas e em A Filosofia da Natureza, dos Naturalistas (1886) surge exposta de modo inequívoco no ensaio filosófico Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, escrito a pedido do amigo Eça de Queirós, então diretor da Revista de Portugal e aí publicado nos primeiros meses de 1890. Neste estudo, o mais importante que legou à cultura portuguesa, o seu pensamento evoluiu no sentido de um novo espiritualismo contra o positivismo e os materialismos da época. Em 1891, Antero de Quental decidiu regressar definitivamente a Ponta Delgada, juntamente com as filhas adotivas. As primeiras cartas aos amigos são otimistas. Contudo, em breve, o seu estado de saúde agravou-se. No dia 11 de setembro, após ter comprado um revólver, arma que usou pela primeira vez, Antero suicidou-se. Havia escrito na carta autobiográfica enviada a Wilhelm Storck, o tradutor alemão dos Sonetos, em Maio de 1887: “Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana e, como diziam os antigos, na paz do Senhor. Assim o espero”. Fonte: https://www.instituto-camoes.pt/activity/centro-virtual/bases-tematicas/figuras-da-cultura-portuguesa/antero-de-quental Imprimir 9